Lembro-me de que esse local era realmente o lugar que ele mais gostava de estar. Certa vez, achei que o tinha perdido no meio da mata, pois pairou um silêncio, eu o chamava, e nada, assobiava, e nem sinal, quando, de repente, ele aparece todo melecado, fedendo horrores e ao verificar direito o que tinha ocorrido, descobri que ele estava quietinho porque ficou rolando na carniça de algum animal morto por lá. Dei vários banhos nele, mas que não resolveram nada, ele ficou fedendo por mais de um mês.
Superativo, inquieto e com muita energia pra gastar; certa vez, deixei ele preso pelo enforcador num gancho do portão, só pra eu poder pegar as chaves e fechar a casa, quando olhei pra trás, ele havia escorregado e tomou um tranco no pescoço, corri até ele e o soltei rapidamente, mas ele começou a cambalear e caiu no chão totalmente desacordado; foi uma correria total, peguei ele no colo, coloquei ele no carro apoiei sua cabeça na minha perna e fui rezando pra ele resistir. Entrei direto na emergência da clínica veterinária e o entreguei ao médico veterinário.
Após longa meia hora de espera, o veterinário me informa que o tranco no pescoço o enforcou causando uma parada na circulação sanguínea, mas que, com os procedimentos de emergência e com muita sorte, desta vez, ele escapou da morte, e completou dizendo que por mais alguns minutos ele não teria resistido.
No inverno, dormia na minha cama pra esquentar. Já, no verão, ia dormir no meio do quintal. Carnívoro ao extremo detestava frutas e legumes, era invocado e valente, latia bastante no seu território, mas adorava crianças pois era muito sossegado e carinhoso quando estava passeando na coleira ou solto em alguma praça.
Não gostava muito de água; lembro-me de uma vez, quando ainda novinho, ao chegarmos na beirada de uma represa, acho que ele confundiu que a água sem movimento fosse piso sólido, e pulou, não me deu tempo de fazer nada, só me restou cair na gargalhada e ficar olhando a cara dele de bobo, com os olhos arregalados, nadando desesperado pra sair dali o mais rápido possível, foi demais!
Uma outra vez, passei uma bela vergonha, pois estava começando um namoro com quem eu viria me casar futuramente, e estava preparando uns bifes para jantarmos, e num piscar de olhos, cadê os bifes? O guloso enfiou os dois bifes inteiros dentro da boca e saiu correndo em disparada para o quintal, me sacaneou e queimou o meu filme com minha namorada! Essas eram algumas das trapalhadas que vivia fazendo.
Mais tarde, certamente ele passou por fases bem difíceis, emocionalmente falando, pois quando me casei ele perdeu a cama e já não podia mais dormir comigo.
Logo que minha filha nasceu, ficou todo enciumado, pois teve que dividir todas as atenções. Mas ele tirou numa boa e logo virou o melhor amigo e guardião da minha filha. Vale lembrar que a primeira palavra que minha filha falou não foi nem papai, nem mamãe, foi: “Led”.
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| Led e Bruna |
Foram milhares de passeios, várias viagens e muitas aventuras, pois sempre que possível, estávamos juntos. O tempo passou e aquele bolinha de pelo, pestinha, foi ficando mais velho, e esse é o lado ruim de ter cães, eles envelhecem bem antes de nós.
Porém passamos juntos também a fase em que ele ainda não tinha percebido que a idade avançada já tinha chegado. Aquele cachorro hiperágil já não aguentava andar tanto, então andávamos bem menos e mais devagar, ele ainda achava que podia subir uma mureta, mas caía, pois já não conseguia saltar tão alto.
Começou, em certo momento, a tropeçar nos degraus e calçadas, pois já não estava enxergando bem. O pior de tudo foi quando ele ficou surdo, foi muito difícil pra ele. Mas tive o privilégio de estar junto dele pra levantá-lo e poder participar de todas as etapas da sua vida.
Ele teve alguns dias ruins em suas últimas semanas de vida, pois já estava com um problema grave de coluna, o que o impossibilitava de se levantar, e eu tinha que levantá-lo em vários momentos do dia pra que ele pudesse fazer suas necessidades e caminhar um pouco pra exercitar seus músculos e articulações.
Quem já passou por isso sabe que é uma tarefa difícil e cansativa, pois o animal fica totalmente dependente da pessoa, mas agradeço a Deus por ter me proporcionado isso, não pelo sofrimento dele, mas pelo fato de ter sido uma fase em que ficamos muito próximos, pois ele dependia totalmente de mim, pelo seu olhar, parecia me agradecer e ficava muito feliz quando estávamos juntos.
Certo dia, ele amanheceu muito mal e já no consultório do médico veterinário ele acabou entrando em choque anafilático derivado de complicações renais, e foi quando a veterinária me disse que o único procedimento a ser feito naquele momento era a eutanásia, pois não havia mais possibilidade de reverter o seu quadro clínico.
E foi assim que segurei suas orelhas juntas com uma só mão como ele gostava, e com meu rosto colado no dele pedindo perdão por aquela decisão, mesmo sem saber se ele podia me ouvir. Esperei então seu sono mais profundo chegar, para, em seguida, seu velho coração descansar pra sempre.
Tenho saudade de duas coisas, principalmente: quando ele ficava sentado entre minhas pernas pra eu poder mexer e fuçar em seu pelo, pois ele adorava quando eu fazia isso, e de ver ele sentado de bunda num degrau ou no pé de qualquer pessoa.
Led, agradeço por você ter sido um cão maravilhoso e inesquecível, por ter cativado a todos que te conheceram, como me cativou, por me proporcionar muitas alegrias e satisfação, por ter sido um companheiro de verdade enquanto esteve aqui ao meu lado e que, de uma forma ou de outra, despertou o amor que hoje tenho pelos animais, especialmente pelos cães, e por ter colaborado para que eu levasse minha vida trabalhando e me dedicando aos animais.
Qualquer dia nos encontraremos no reino dos cães.